Rio de Janeiro: o lugar perfeito para esports, mas sem eventos
Você já ouviu falar em esportes eletrônicos, ou esports? Esse universo que vem crescendo cada vez mais no Brasil e no mundo nada mais é que competições de videogame valendo dinheiro. E não é pouco. Só em 2018 e através de múltiplos jogos já foi premiado 104 milhões de dólares - e esse valor tende a crescer ainda mais até o final do ano.
Essa modalidade começou a ganhar popularidade por volta de 1998, com a inserção da função online nos jogos, e nos dias de hoje compete com os esportes tradicionais pela atenção das novas gerações. O jogo mais popular é League of Legends (LoL), seguido de Counter-Strike, Overwatch e Fortnite, e celebridades como o rapper Drake e o jogador de futebol inglês Harry Kane são vistos constantemente em transmissões ao vivo de jogatinas.
Enquanto ao redor do planeta os torneios ocorrem em uma variedade de lugares, no Brasil isso não acontece. Em geral, a maioria deles se localiza em São Paulo. Isso porque a capital paulista é centro de diversos eventos, reuniões de negócios e espaços que em geral também servem de abrigo para o cenário e-sportivo. Assim, já houve campeonatos no Alianz Parque, no Ginásio Ibirapuera, no WTC Golden Hall, entre outros.
A grande questão é de por que o Rio de Janeiro não recebe tantos torneios como São Paulo. Até hoje, foram dois torneios de grande escalão em solo carioca: a final do Campeonato Brasileiro de League of Legends no Maracanãzinho, em 2014, e a fase de mata-mata do Mundialito de League of Legends, em 2017, na Jeunesse Arena. Dois míseros eventos com um período de três anos entre eles.
Para Felipe "RAG" Gonçalves, 18 anos, gerente de mídias sociais e residente de Niterói, isso ocorre porque as locações são muito caras para justificar trazer um evento para a cidade. "Eu tenho contato com pessoas dos bastidores e eu percebo que a maioria delas diz que é muito caro pra alugar um espaço aqui no Rio. Em outros lugares do Sudeste ou Sul é mais fácil". A Riot Games, empresa criadora do LoL, nunca comentou a respeito.
O primeiro evento carioca, ocorrido no Maracanãzinho, foi no dia 26 de julho de 2014. Na época, KaBuM e CNB surpreenderam o país ao derrotar Keyd Stars e paiN, respectivamente, e avançar para a decisão. No fim, KaBuM levou a melhor vencendo a partida por 3 a 1. Aproximadamente oito mil ingressos foram vendidos para pessoas acompanharem a partida presencialmente e os vencedores conquistaram 55 mil reais de premiação.
O segundo, por sua vez, foi na Jeunesse Arena e teve grande prestígio pois foi o primeiro evento internacional de LoL em terras brasileiras. Representantes de Coréia do Sul, China, Europa, América do Norte, Vietnã e Taiwan vieram e os ingressos se esgotaram em menos de uma hora. Joaquin Angeli, 17, que assistiu a fase de grupos, disse que "nunca pensou que assistiria de perto esses jogadores".
Os primeiros dias, no entanto, não lotaram o local devido a difícil acessibilidade e ao preço dos ingressos. Eventualmente eles tiveram que ser reduzidos, o que aumentou o público para as semifinais e grande final. Sobre isso, o estudante Rafael Libaber, 16, que teve a oportunidade de assistir, opinou: "A Arena em sí é de qualidade, mas o fato de ser quase no fim da Barra dificultou tanto que eu achasse como também chegasse lá. Eles poderiam ter feito em um lugar mais perto". Caio Leão, 17, também estudante, elaborou dizendo que "o preço foi definitivamente salgado e deveria seguir os padrões estrangeiros, que são bem menores".
O que as organizadoras de evento têm que começar a perceber é que o Rio tem grande potencial no mercado de esports. O Maracanã é um estádio icônico e, embora caro, elevaria as competições a um outro nível midiático. Especialmente se o time do Flamengo, atual vice-campeão do Brasileiro de LoL, conseguisse nova classificação para futuras finais. É um local com capacidade para muitos torcedores, então poderia rivalizar com quando a final do Mundial foi no Seoul World Cup Stadium – o estádio de abertura da Copa de 2002.
Além disso, há de se levar em conta que o Rio é um importante ponto turístico brasileiro. Muito mais do que São Paulo. Então inevitavelmente haverá pessoas que aproveitarão o fato de o evento ser aqui para visitar pontos turísticos e conhecer a cidade. Seria como matar dois coelhos com uma cajadada só.
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| Partida do Mid Season Invitational, no Rio |
Jefferson Carneiro, carioca de 27 anos que trabalha na indústria de esports há meia decada, cita a segurança como um possível fator para esse afastamento. Ele recorda o incidente na final do Mundialito de 2017, quando um torcedor invadiu a arena e foi comemorar aos abraços a lendária equipe coreana SK Telecom T1. “O Rio de Janeiro é famoso não só por praias e paisagens bonitas, mas querendo ou não também pela criminalidade”, ele diz e elabora na sequência: “É claro que a probabilidade de rolar um atentado com bombas é mínimo. Mas e assaltos e a invasão que aconteceu? Às vezes os organizadores pensam que as empresas de segurança do Brasil não são tão bem treinadas e, por isso, se afastam da cidade”.
O aspirante a jogador de Formula 1 Esports, Ricardo “CaCoLoRdE” Martins, ecoa esse sentimento e diz que, caso consiga se tornar profissional, teme pela própria proteção. “Pro gamers cada vez mais estão se tornando celebridades. Então se as empresas não garantirem uma guarda, daqui a pouco acontece outra invasão aos palcos de jogos”.

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